imagens, registros e reflexões sobre a versão em HQ de "As Barbas do Imperador" de Lília Moritz Schwarcz

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

na corte do Rei-Sol


Esta ilustração abre o capítulo "como ser nobre no Brasil", que corresponde ao capítulo 8 do "Barbas", escrito por Lília Schwarcz em parceria com Ângela Marques da Costa.
Abaixo, vocês podem ver o layout a lápis com as legendas aplicadas.
(não custa lembrar, clique com o botão direito do mouse e escolha a opção "abrir em outra janela", é melhor do que apenas clicar para abrir).


O layout foi inspirado na imagem abaixo, e eu não me lembrava mais de que quadro era este detalhe.
Depois de muito procurar, localizei o quadro "Recepção do Grande Condé em Versailles", de Jean-Léon Gérome, pintado em 1878, que está no museu d'Orsay.

Eu não precisava deste momento histórico específico; só queria um símbolo da corte do rei Luís XIV - com sua cenografia cheia de ouros e mármores, tão magnificente, tão esplendorosa, que chega a ser bizarra, brega. A decoração e as roupas do rei-sol marcam o que parecia ser o ápice da nobreza, mas que é na verdade a decadência dos nobres - é a nobreza completamente submetida ao chefe de Estado absolutista, já bem distante de sua natureza guerreira original, como um mastim submetido a séculos de seleção artificial até se tornar um poodle de madame.




Como as cópias que encontrei deste quadro eram em baixa resolução, procurei esse ambiente na internet e em guias do palácio de Versailles. Mas não havia nada parecido...
Procurava no Google: Versailles, staircase (escadaria), Louis XIV, Louis 14...

Enfim descobri: Escalier des Ambassadeurs (Escada dos Embaixadores), demolida em 1752, numa reforma feita por Luís XV. O quadro foi pintado mais de 100 anos depois, o pintor baseou-se em gravuras.
Encontrei algumas reconstituições, desenhos e várias fotografias de uma maquete exposta no Louvre. Também tinha no site do Louvre uma maquete virtual, mas não consegui rodar, deve ser um programa antigo.



Não fui muito fiel, peguei algumas coisas do quadro de Gérome, outras da maquete, simplifiquei um pouco.
Pesquisei não para obter fidelidade, mas para enxergar melhor, entender melhor os detalhes.
Como o par de peixes dourados (ornamentos típicos de arquitetura chamados "delfins", mas têm escamas, são golfinhos fantasiosos) ao lado do busto do rei. É divertido desenhar essas extravagâncias.

De qualquer forma, só queria mesmo uma moldura espalhafatosa para o "rei-sol".

sábado, 10 de dezembro de 2011

resumo da palestra SIB - 08/12/2011

Aqui está um resumo da minha palestra "um quadrinhista na história", parte do evento "IlustraBrasil!", sediado na Matilha Cultural, em São Paulo. Muito obrigado aos que ajudaram e aos que compareceram, enfrentando o trânsito de final de ano, já complicado, agravado ainda pela chuva, festa e passeata na Paulista.
Aos que não puderam ir, ou para quem foi e gostaria de ter um resumo, publico este roteiro. Não o segui fielmente, na hora segui alguns desvios, por improviso ou devido a perguntas interessantes que aparecem.
O texto não é lá essas coisas, são notas que fiz para mim mesmo. Está meio seco e esquemático, vou deixar assim porque a prancheta me chama...

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roteiro palestra SIB:
como recriar o Passado.
1) História: conceito de "o que aconteceu" e "o que acontecia".
"o que aconteceu" = fatos, marcos, mudanças; atos importantes de celebridades, líderes; fatos que não se repetem.
a História como sucessão de acontecimentos, ações e reações, causas e efeitos, progresso, em linha.
(abaixo um exemplo de "o que aconteceu" = o nascimento de d.Pedro II, fato que não se repete)

"o que acontecia" = ações que se repetem, padrões de vida social, costumes, moda, manias; personagens famosos e anônimos;
a História como um lugar no´passado: "no tempo dos romanos", "no tempo dos castelos medievais".
registro do modo que as pessoas viviam.
(na cena abaixo, feita para a versão de Debret para o canal Futura, não está acontecendo nada de importante, é um dia como outros no largo do Paço "no tempo do Rei").

Esta segundo modo de História é essencial ao ilustrador e quadrinhista.
Não é só o pano de fundo: é a matéria mesma da História - a vida, as pessoas - que a "História dos fatos" vai afetar com suas mudanças.
Não é possível ilustrar "o que aconteceu" sem a referência de "o que acontecia" e "como era".
2) ESTILO DE UMA ÉPOCA
"o que acontecia" e "como era" tem uma unidade que se expressa num estilo artístico e arquitetônico,
marca de uma época, design de objetos e armas.
(exemplos: santô e belle époque; debret/djoão/império e estilos neoclássico e romântico).
eu utilizei tanto no desenho da HQ, como no design da capa e molduras.
(abaixo, o "estilo metrô" parisiense, típico da belle Époque - viarada do século XIX para XX, pré-Primeira Guerra mundial, usado em "Santô e os Pais da Aviação").



 3) GEOGRAFIA
Na geografia temos os marcos permanentes. Ou quase, porque de vez em quando demolem um morro e mudam a paisagem...
De qualquer modo, quando represento lugares, tenho em mente o reconhecimento de ver algo familiar, e a surpresa de ver como era diferente. As duas coisas juntas, o permanente e o transitório.
Essa é a graça.
(na cena abaixo, de "D.João Carioca", o Corcovado, sem o Cristo).

4) TECNOLOGIA
transportes; meios de comunicação; iluminação noturna.
Transportes - não só a aparência das coisas é outra; o transporte e a comunicação afetam a noção de tempo
(atravessar o Atlântico em dois meses de navio; receber uma mensagem por um correio a cavalo).
tecnologia militar - armas de fogo, como se atira com um arcabuz ou espingarda de pederneira ou pistola.
Iluminação, fontes de luz: fundamentais para estabelecer o clima de uma época: candeeiros, candelabros, lustres, tochas etc.
calçamento de ruas.
(abaixo, maquetes improvisadas do 14 bis e Demoiselle que usei em "Santô" e um canhãozinho para "D.João").

5) MODA E UNIFORMES
Procuro conhecer a moda geral básica da época.
Ficar íntimo dela, conhecer vários exemplos (e não apenas do meu personagem e do país que estou estudando).
Assim, não vou procurar "moda do Brasil no século XIX", mas a moda européia em geral, nas décadas.
Mesmo que eu tiver uma boa iconografia (ex: Debret), é bom ver como outros artistas mostravam a mesma roupa (nas caricaturas, pinturas e fotografias).
Também é bom assistir filmes que mostrem o mesmo tempo (exemplo: Guerra e Paz, época napoleônica)
Depois, procuro, nas roupas da época, ver que roupa encaixa bem no físico e na personalidade do meu personagem.
Ex: o mesmo uniforme, como veste um soldado:
a) certinho, arrumado, zeloso pelos deveres, "by the book", que segue os regulamentos;
b) acomodado, burocrático, talvez corrupto, que não quer encrenca;
c) fogoso, heróico, de pavio curto;
d) engajado à força no exército;


6) HIERARQUIA E FUNÇÕES SOCIAIS
identificar os papéis na sociedade: quem manda, quem obedece; quem trabalha, quem é servido;
regras sociais de etiqueta; por exemplo, ficar de p[e na sala do trono, ajoelhar diante da passagem do rei pela rua, beijar a mão.
hábitos sociais: andar de braço dado (homens).
Tudo é mostrado: é preciso criar ações que mostrem a importãncia e função dos papéis
(pessoa se curvando respeitosamente).
Roupas que mostrem ou sugiram essas funções.
Criados, empregados, cocheiros, serviçais, secretários: funções de ligação na história - difícil vê-los em pinturas.
Grosso modo, podemos usar nossa experiência moderna para "mapear" o passado:
(vc sempre vai ter: líderes e chefes políticos; polícia ou segurança ou militares; comerciantes; artesãos; funções intelectuais e sacerdotais; trabalhadores braçais trabalhando ou transportando coisas etc)
Mas como se comportam exige pesquisa (gravuras, teatro, cinema etc)
7) TIPOS HUMANOS
Também veremos os mesmos tipos ou a mesma variedade: se tivermos uma coleção básica de tipos humanos,
será fácil desenhar qualquer grupo.
Procuro pensar em opostos: altos e baixos, jovens e moços, crianças e velhos, homens e mulheres;
Baseados na emoção dominante: personalidades expansivas e confiantes X introspectivas;
alegres X severos, carrancudos; descontraídos X formais.


É assim também que crio personagens.
procuro definir que tipo de pessoa ele é;
e a seguir, penso na turma dele, no seu rival ou antagonista, seu parceiro.
Em conjunto, um contrastando com o outro, todos se desenvolvem e se tornam mais nítidos.
Eu conheço cada vez melhor cada personagem (e o leitor também) em contraste com os outros.

7) COMO ORGANIZAR A PESQUISA
Eu sou um pesquisador voraz. É fácil juntar muita informação, especialmente hoje na internet;
é fácil juntar muito dado inútil sobre um assunto, e quase nada sobre outro.
Por isso, recomendo que se faça a pesquisa direcionada pelo roteiro.
Num primeiro momento, pesquisa geral da época: pesquisar "como eram as coisas", mesmo que não tenha relação direta e estrita com os personagens; a tarefa primeira é adquirir familiaridade com aquele mundo.
Depois, seguindo o roteiro mais de perto, procurar apenas as coisas que vão entrar:
Um jeito de simplificar a pesquisa com o ambiente, é concentrar as ações em poucos lugares (se o roteiro permitir), de modo que eu dominar todo o cenário com um olhar.
Chamo isto de "presépio" (*isto esqueci de falar) - esta gravura do Debret é perfeita para isto.
(em vez de visualizar como o blog oferece, clique com o botão direito do mouse e escolha "abrir em uma nova janela" - postei esta aqui bem grande, vale a pena passear e ver os detalhes).

"Presépio": sugiro resumir os ambientes em um cenário reduzido, como se fosse um teatro.
Se a ação acontece em uma cidade como Paris ou Rio, escolher algumas ruas principais.
Isso acontece muito numa produção de filme, por economia.
Na HQ, temos a liberdade de fazer muitas locações diferentes; mas isto amplia muito a pesquisa.
Acho melhor concentrar a ação em uns poucos lugares. É bom para a produção, e também para o leitor, que vai aos poucos reconhecendo os lugares.
Meu Rio de Janeiro imperial se concentra no centro (praça 15) e em alguns palácios.
A Salvador de Jubiabá se concentra no Pelourinho; no bar Lanterna dos Afogados; no morro; numa casa de um bairro rico e mais alguns lugares.
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As minha notas terminam aqui.
Houve várias perguntas interessantes, e uma delas não pude responder, ou melhor, não pude exemplificar com imagens.
Era sobre a diferença entre o meu layout e a arte-final.

Aqui está uma amostra. O layout a lápis, sombreado no Photoshop e com texto  diagramado é o que mostrei para a Lília Schwarcz para sua aprovação. Ela praticamente leu a HQ como será publicada, em termos de narrativa.
Apesar de adiantado, é insuficiente para a finalização. Na hora do nanquim é que percebo os chutes...
Por isso, tudo é redesenhado, preservo mais ou menos a composição, olho de novo o material de pesquisa com olhos mais exigentes, e até surgem algumas idéias novas.
Os balões são feitos à parte, pretendo entregar para a editora em layers (camadas), para que lá possam ajustar ao texto se necessário.
(de novo: em vez de visualizar como o blog oferece, clique com o botão direito do mouse e escolha "abrir em uma nova janela" - postei esta aqui bem grande, vale a pena ver os detalhes).

abraços, spacca


terça-feira, 9 de agosto de 2011

e lá vem prédio!


Estamos no dia da coroação de Sua Majestade D.Pedro II, em 18 de julho de 1840.
Um edifício provisório, chamado "Varanda" - será desmontado após a cerimônia - foi construído especialmente para a solenidade.
Tenho duas imagens de referência, um desenho técnico meio borrado, e uma pintura, cujos detalhes, vendo de perto, não conferem entre si:


E "inventei" de fazer um vôo razante nas próximas duas páginas, mostrar detalhes, as esculturas da Sabedoria e da Justiça aos pés da escada, uma quadriga no alto da parte central (o "Templo") e duas bigas nos blocos laterais; são detalhes que o livro da Lília enfatiza, pois "a suntuosidade do ritual é um elemento básico para a manutenção do estado monárquico". Assim, não é um mero capricho estético: trata-se do espírito do livro, que não é puramente de História, mas de Antropologia, que procura desvendar nos rituais e na estética do Segundo Reinado os padrões de comportamento daquela sociedade.
Não tenho imagens suficientes para mostrar os detalhes a que o texto se refere; eu gostaria de mostrar ao leitor, com riqueza de detalhes, a coroação, esse grande teatro da corte. Então, o que eu não puder enxergar e copiar, terei que deduzir e imaginar a partir de fontes escritas.
Não posso inventar: existe uma descrição minuciosa da cerimônia e da Varanda, neste link: http://imperiobrazil.blogspot.com/2010/07/coroacao-de-dom-pedro-ii.html .
Só uma amostra: ""O fastígio do templo tem um baixo-relevo representando as Armas Imperiais, e no friso a seguinte inscrição: - Deus protege o Imperador e o Brasil. - o ático é coroado por uma quadriga, em cujo carro triunfante está o Gênio do Brasil, tendo na mão esquerda as rédeas dos ginetes, e na direita o cetro Imperial."
Bigas e quadrigas são motivos comuns de monumentos e arcos-de-triunfo neoclássicos. Sendo o criador ou coordenador dessas estátuas um discípulo de Debret, Manuel de Araújo Porto-Alegre, é natural que a aparência dessas estátuas siga o padrão da arquitetura européia desse período. O tal "gênio do Brasil" que conduz a quadriga deve ser um senhor parecido com esse aí abaixo, na medalha em que coroa o imperador-menino:

Juntando esses elementos, criei essa cena aérea sobre o largo do Paço, tomando o cuidado de, apesar do meu desenho não ser realista, fazer uma reconstituição plausível, dentro do que seria possível ver dentro desse raio de visão.
Com um pouco de exagero, claro (inspirado na escola Disney italiana, que os fãs costumam identificar com Cavazzano, criador de perspectivas ousadas; mas que eu conheci no traço dos artistas mais antigos como Romano Scarpa e Giovan Batista Carpi), esta vista aérea permite que se veja em primeiro plano a quadriga do "gênio do Brasil", mix de ícone greco-romano com elementos indígenas (mistura que será assunto de todo um capítulo mais adiante).

A geografia, o Pão de Açúcar ao longe e o extinto Morro do Castelo à direita estão mais ou menos dentro do que é possível ver, desse ângulo. Para o Pão de Açúcar, consultei mapas do Rio e, traçando uma linha desde a Praça 15 até ele, teria uma vista do rochedo semelhante à que podemos ver a partir do aeroporto Santos Dumont ou da Glória. Algumas fotografias e uma simulação no Google Earth serviram de base para esse panorama:
Além disso, usei diversas fotos do Paço Imperial, incluindo maquetes; ilustrações do Morro do Castelo (demolido em 1922) feitas pelos viajantes (Rugendas, Thomas Ender e outros); e uma magnífica reconstrução de Guta (Carlos Gustavo Nunes Pereira) mostrando o Porto do Rio - o ângulo do Pão de Açúcar e do Morro do Castelo é mais ou menos o mesmo.


A terceira página é no estilo "enciclopédia", em que eu redesenho a fronte da "Varanda", improvisando um pouco nos detalhes que não consegui captar, mais duas estátuas representando os rios Amazonas e Prata, os extremos do Brasil naquele tempo (é como dizer hoje "do Oiapoque ao Chuí"), das quais eu também não tinha referência - inspirei-me nas estátuas dos rios do monumento de D.Pedro I na praça Tiradentes, um pouco mais rígidas (mais "gregas", geometrizadas, e menos "românticas), aliviando o rigor com o costumeiro traço caricato que tem "licença para brincar".
As estátuas das deusas da Sabedoria e da Justiça provavelmente não eram como essas que desenhei, mas estas estão dentro do espírito e do imaginário dos artistas que decoraram a festa do jovem rei.
Imaginei que todas essas alegorias seguiam modelos europeus. Dito e feito. A representação de rios em forma de estátuas é bastante comum, praticamente um gênero. Baseei-me nestas duas - dos rios Nilo e Ródano - para recriar, com um jeito mais clássico e mais antigo, a estátua do rio Amazonas (sobre  mesmo jacaré que vemos no monumento da praça Tiradentes) e inventar uma alegoria semelhante do rio Prata, usando um índio Charrua e uma ema (porque naquele monumento não temos mais o Prata, só o Paraná, São Francisco e Madeira.

Abaixo, imagens de Palas-Athena (com seu escudo com a cabeça de Medusa) e Themis, a deusa da Justiça, representada ora com venda, ora sem.


Finalmente, nesta gravura abaixo, do tempo da Coroação, temos alegorias semelhantes às das nossas estátuas. Será que elas eram parecidas com esse desenho? Será que o rio Prata era representado por uma índia? Não sei, não consegui saber.
O hábito de representar mitologicamente conceitos, ideais, governos, países e até rios, está na raiz das nossas ilustrações e charges modernas. Quando eu desenhava o "dragão da inflação" e o "leão do imposto de renda" nas charges, era a mesma técnica de representação.
Fazer estas reconstruções históricas ajuda a entender como funcionava a imaginação da época, sua sensibilidade artística, que forma davam aos seus valores e ideais.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Um detalhe besta. Será?


Eu pensava começar este blog com uma apresentação do projeto, com esboços, didaticamente, na ordem em que foram feitos...
Mas não é assim que acontece.
Enquanto estudava e me preparava para finalizar a HQ, estava mais preocupado em encontrar soluções do que em registrar.
E agora estou bem no meio do tiroteio, no calor da batalha, tentando cumprir a cota semanal que eu mesmo me impus, para honrar o compromisso de entregar pronta a HQ daqui a um ano.



Por isso, publico este primeiro post já com o bonde andando.

Esta ilustração que abre o post é a página 12, onde vemos o "golpe da maioridade" - políticos liberais põem fim à regência e D.Pedro II assume o trono aos 15 anos, três anos antes do previsto.

O detalhe mostra, supostamente, o prédio do Senado, conforme uma gravura que consultei, tanto em livros como na internet.
Mas comparem as duas referências abaixo, primeiro a gravura de Bretichen:




...e a gravura atribuída a N. Whillock (desenhista ou gravador?):


São diferentes, como se o prédio tivesse sofrido uma reforma, uma ampliação.

De fato, o prédio do Senado (outrora Palácio do Conde dos Arcos) sofreu várias reformas (em 1832 desabou o teto; reabriu em 1835 mas teve novas obras, etc). Por quase cem anos abrigou o Senado, que em 1925 vai para o palácio Monroe (demolido em 76) enquanto se construía o palácio Tiradentes.
Mas o edifício ainda existe - abriga a Faculdade de Direito da UFRJ, e a quantidade de janelas (cinco) da fachada que dá para a Praça da República (antigo Campo de Sant'Anna) bate com a gravura de Bretichen, mas não com a que usei, mesmo reformada. Há mais continuidade entre a gravura de Bretichen e o prédio atual.

Nesta gravura, de N. Whillock, o prédio mostra 9 janelas dos dois lados.

O conjunto das três faces visíveis do edifício é semelhante, em forma de "Z", mas a quantidade de janelas e o acabamento superior do edifício destoam tanto da gravura de Bretichen, quanto da fachada atual. Sou levado a crer que Whillock deu uma leve improvisada...
Confiram com estas fotografias do Google Maps e outras mais antigas:



Estas duas mostram o mesmo ângulo aberto, não-reto, da rua Moncorvo Filho:


Nas duas seguintes, vemos a mesma fachada de outro ponto de vista:



Nas duas anteriores, estamos à direita do prédio, em frente à antiga Casa da Moeda (atual Arquivo Nacional), olhando mais ou menos na direção do Corcovado (como podemos conferir pela imagem do Google Earth):

Por isso, embora seja apenas um detalhe, achei melhor redesenhar essa parte do cenário (graças ao milagre do Photoshop, não levou mais do que uma hora), baseando-me na gravura de Bretichen, mas no ângulo que permite mostrar o Corcovado para dar uma orientação reconhecível ao desenho.

Esse prédio aparecerá outras vezes, não me lembro agora se do lado externo, mas mostraremos o interior em pelo menos três ocasiões: no juramento de D.Pedro em 1840, no da Princesa Isabel em 1860 e na assinatura da lei Áurea, em 1888.

Não é nada assim tão importante que modifique o teor dos acontecimentos...

É apenas um prédio; bastaria dizer que ali funciona o Senado, e a maioria dos leitores sequer iria duvidar disso - e na hipótese remota de que um estudante de Direito da UFRJ, que soubesse que aquele prédio foi sede do Senado no Império, se desse ao trabalho de comparar a quantidade de janelas com o meu desenho, eu poderia sempre usar a desculpa de que me baseei num documento histórico, a gravura de Whillock (terá sido um projeto?).

Porém, percebo que é um bom hábito perseguir o real, e se não conseguimos o real, pelo menos o plausível, o que poderia ser real, o que se harmoniza com o que sabemos ser verdade.

E o real é onde os nexos se encontram: uma gravura se encaixa numa foto antiga, a foto antiga se encaixa numa foto moderna, a foto moderna se encaixa numa simulação virtual alimentada com dados reais, e todas essas informações se coerenciam entre si, de modo que uma nova informação, se duvidosa, logo salta aos olhos quando comparada com o edifício de informações confirmadas que pouco a pouco construímos - sólido como as paredes do velho Senado que ainda sustentam os andares superiores da Faculdade de Direito.

Cada detalhe besta é um tijolo...